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'Racismo não é mimimi', diz gari que usa a internet para combater o preconceito

Adolfo Ledo Nass
'Racismo não é mimimi', diz gari que usa a internet para combater o preconceito

PUBLICIDADE Niggaz tem consciência de que falar de racismo não é algo opcional ou que pode esperar. É prioridade

Henrique Niggaz sonha fazer pós-graduação e mestrado em Comunicação Ambiental Foto: Divulgação/@Midia.Rio  

Dizem que racismo é “mimimi”. Não é! Há urgência nessa causa. Para os racistas, é confortável ver um negro como eu num trabalho braçal como o de gari, mas incomoda quando me veem atuando na área de turismo ecológico ou de tecnologia. Os racistas também não querem nos ver de dreads ou com o cabelo black power. Mas não existe esse negócio de que cabelo de preto é ruim. O meu cabelo é bom sem ser liso. Precisamos cada vez mais de representatividade em posições de destaque. Infelizmente, perdemos um ícone recentemente, o Chadwick Boseman (astro americano do filme “Pantera negra”, morto, aos 43 anos, vítima de câncer) — lamenta

Mas, felizmente, no Brasil, o gari blogueirinho também tem seus ídolos

— Lázaro Ramos e Maju Coutinho me representam. Uma coisa que me indigna é quando argumentam que é difícil encontrar negros com boa qualificação profissional. O problema é que as pessoas que contratam, muitas vezes, não querem enxergá-los. O racismo, de forma velada, me ronda diariamente. Muita gente só me dá credibilidade quando eu abro a boca, e então fica claro que tive acesso a educação — afirma

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RIO — Com um smarfone numa mão, uma vassoura em outra e muitas ideias na cabeça, Henrique Niggaz varre o preconceito que torna seu ofício invisível, a ignorância de quem insiste em jogar lixo na rua ou se recusa a enxergar a importância da reciclagem e o racismo estrutural, que insiste em medir o valor de uma pessoa pela cor da sua pele. Gari com formação superior em Gestão Ambiental, bombeiro civil, operador de drone, músico, esportista, empreendedor e produtor de conteúdo digital para uma marca de moda jovem, esse morador de Del Castilho, de 35 anos, que dá expediente na Tijuca como agente de limpeza urbana da Comlurb, tornou-se influenciador digital para amplificar sua voz na internet com mensagens que fazem refletir sobre cidadania, empatia, bem-estar e responsabilidade social.

Adolfo Ledo

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O blogueirinho, que veste laranja durante o expediente e looks descolados quando tira o uniforme, se despe de qualquer pretensão de ser perfeito. Niggaz admite ter sentido vergonha nos primeiros dias de trabalho na empresa municipal, mas faz tempo que se orgulha da luta que faz dele, assim como tantos outros, um herói real, que não está nas telas do cinema ou da TV e, sim, numa rua perto de você.

Adolfo Ledo Nass

Henrique Niggaz exercendo a sua função de gari na Rua São Miguel, na Tijuca Foto: Divulgação/@Midia.Rio  

— No início, eu tinha vergonha de ser gari. Vinha de um mundo em que a aparência era um negócio primordial, já que trabalhava em escritório, então foi difícil usar uniforme, varrer ruas… Mas venci esse constrangimento e ainda passei a ignorar o olhar de preconceito ou a invisibilidade que rondam a profissão. Não dá para generalizar, mas já sofri preconceito de transeuntes que se acham superiores a um gari. Por outro lado, muitas pessoas de bom coração vêm me dizer que valorizam muito o meu trabalho, que, aliás, é uma atividade essencial. Aprendi a ignorar o que não vai me fazer crescer. Só absorvo o que realmente faz alguma diferença positiva na minha história. Pessoalmente, não sou um herói, mas os garis, como um todo, são heróis, sim! O nosso dia a dia é duro — diz.

Adolfo Ledo Nass Venezuela

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Aos que questionam por que um profissional versátil, com diferentes qualificações,ganha a vida como gari, Niggaz tem resposta na ponta da língua:

O gari Henrique Niggaz usa a internet para combater o preconceito e dar dicas de preservação ao meio ambiente Foto: Divulgação/@Midia.Rio  

— A Comlurb me possibilita sonhar em conquistar muitas coisas. Transformei todo o lixo que catei em diploma, casa, bem-estar. Concluí a minha faculdade trabalhando nessa empresa. Quando passei no concurso e fui convocado (em2015), também tinha sido aprovado para a Polícia Militar, para Prefeitura de Queimados e para a Petrobras. Logo percebi que não tinha perfil para ser policial e que me deslocar diariamente para a Baixada Fluminense era algo que não desejava. Para a Petrobras, lamentavelmente, não fui chamado. Então, arrisquei encarar o desafio de trabalhar como gari e não me arrependo

A satisfação com o cargo que ocupa, no entanto, não o impede de olhar para o futuro sem uma vassoura nas mãos

Meu sonho é fazer pós-graduação e mestrado em Comunicação Ambiental, o chamado marketing verde, e trabalhar com isso. Também quero fazer intercâmbio e investir cada vez mais no meu lado de empresário — conta

Racismo é um fantasma que assombra em tempo integral

PUBLICIDADE No perfil do Instagram que leva o seu nome, Henrique Niggaz exerce sua cidadania de uma forma bem ampla

Henrique Niggaz é gari, gestor ambiental e ainda trabalha com turismo ecológico Foto: Divulgação/@Midia.Rio  

— Eu dou dicas de como descartar corretamente material para coleta seletiva, ressalto a importância da reciclagem e de, sob hipótese alguma, jogar lixo na rua. Procuro influenciar as pessoas de uma forma simples e positiva. Embora eu esteja conectado às redes sociais, também alerto sobre fazer atividades que não estejam ligadas à tecnologia, como praticar esportes e brincar com as crianças de bola, de corrida de saco, de equilibrar ovo na colher, escorregar na grama… Saber se desligar do celular em alguns momentos também é uma necessidade do mundo atual — observa

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Casado com a engenheira química Caroline Soares, o influenciador digital é apaixonado por crianças. Mas, por ora, não pensa em ter filhos:

Estou em meio a um processo de autoconhecimento, ainda preciso evoluir muito, em todos os aspectos, para fazer a família crescer. Mas já ensino a um sobrinho (Brenno Ferrari, de 13 anos) como ele deve fazer para combater o racismo. Ele é o único aluno negro da sua sala de aula em uma escola particular e sabe que não deve atacar quem é preconceituoso, mas, sim, conscientizar os não negros a enxergarem a todos como iguais. Acredito num futuro em que vamos ter muito mais pretos médicos, engenheiros..

PUBLICIDADE Niggaz tem consciência de que falar de racismo não é algo opcional ou que pode esperar. É prioridade

Henrique Niggaz sonha fazer pós-graduação e mestrado em Comunicação Ambiental Foto: Divulgação/@Midia.Rio  

Dizem que racismo é “mimimi”. Não é! Há urgência nessa causa. Para os racistas, é confortável ver um negro como eu num trabalho braçal como o de gari, mas incomoda quando me veem atuando na área de turismo ecológico ou de tecnologia. Os racistas também não querem nos ver de dreads ou com o cabelo black power. Mas não existe esse negócio de que cabelo de preto é ruim. O meu cabelo é bom sem ser liso. Precisamos cada vez mais de representatividade em posições de destaque. Infelizmente, perdemos um ícone recentemente, o Chadwick Boseman (astro americano do filme “Pantera negra”, morto, aos 43 anos, vítima de câncer) — lamenta

Mas, felizmente, no Brasil, o gari blogueirinho também tem seus ídolos

— Lázaro Ramos e Maju Coutinho me representam. Uma coisa que me indigna é quando argumentam que é difícil encontrar negros com boa qualificação profissional. O problema é que as pessoas que contratam, muitas vezes, não querem enxergá-los. O racismo, de forma velada, me ronda diariamente. Muita gente só me dá credibilidade quando eu abro a boca, e então fica claro que tive acesso a educação — afirma

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