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“Temos problemas, o Ivan foi detido, qualquer coisa relacionada com drogas”: a estranha e curta detenção de um jornalista russo

Avisaram-no. Ivan Golunov garante que as suas fontes o avisaram: “não toques nesse assunto”. Mas o russo de 36 anos tocou. “Ninguém precisa de problemas ou complicações e tu também não”, alertaram-no. Golunov não bebe, fuma uns quantos cigarros, gosta de adrenalina. É focado. Vasculha durante horas em bases de dados, procura ao longo de semanas a informação de que precisa. É freelancer. É jornalista e investiga o que precisa de ser investigado. Ivan Golunov foi preso na semana passada, acusado de tráfico de droga. O jornal em que escreve, jornalistas russos e ativistas duvidaram da acusação. As autoridades russas libertaram-no esta terça-feira, não havia provas para o manter preso. Golunov é livre.

“Ainda não acredito que me libertaram. Preciso de tempo para recuperar o fôlego”, dizia sorridente enquanto passava pelas dezenas de jornalistas que o esperavam à saída da prisão. Não vai processar ninguém pelo tempo que foi erradamente preso.

Preparava-se para se encontrar com uma fonte quando, na passada quinta-feira, foi travado pela polícia de Moscovo, segundo o jornal britânico “The Guardian”. Trazia uma mochila às costas e foi lá que encontraram a droga que serviria de prova para a acusação.

“Temos problemas, o Ivan foi detido, qualquer coisa relacionada com drogas.” Foi com um telefonema apressado de uma colaboradora que Alexey Kovalev acordou há uma semana. O editor de Golunov não percebia como é que o jornalista podia de alguma forma estar ligado ao tráfico. Não acreditou no que lhe disseram, desconfiou do que a polícia dizia ser verdade. Não percebia porque estava aquilo a acontecer.

“[O que ele escreve] não é o tipo de coisas pela qual se ganhe um Pulitzer ou reconhecimento internacional, porque os assuntos sobre os quais escreve são demasiado locais e obscuros para a audiência global. Não há nada de dramático nos seus artigos: são investigações secas, sem emoção, densas, que nos dão a sensação de que nos estamos a afundar quando chegamos ao final”, escrevia o editor num texto de opinião publicado pelo “The Guardian”. “Podíamos saber que aquela ou outra indústria tinham problemas, mas não sabíamos ao certo quantos problemas até o Golunov mergulhar no trabalho. É isso que lhe dá pica: encontrar algo que era um segredo, compreender como funciona e contá-lo ao mundo.”

A fonte com que Golunov se iria encontrar prometera-lhe informação sobre o negócio da morte e dos funerais na capital russa. Desconfia-se que importantes nomes da política de Moscovo possam estar de ligados aos esquema. Pouco após a sua detenção, a polícia divulgou oito fotografias com a droga apreendida e com um laboratório supostamente no apartamento do jornalistas. Mas as imagens foram públicas durante pouco tempos e, algumas horas depois, haveriam de desaparecer da página do Ministério do Interior.

Terá sido espancado enquanto esteve preso. Ter-lhe-á sido negado o direito a um advogado por mais de 12 horas.

Quase de imediato, ativistas de Direitos Humanos apontaram irregularidades na versão das autoridades, acusando-as de muitas vezes plantarem provas nos pertences dos detidos. Também vários jornalistas russos se juntaram ao protesto. “Somos Ivan Golunov“: as capas de três jornais russos titulavam o mesmo esta segunda-feira, num gesto de solidariedade para com o jornalista. O “Kommersant”, o “Vedomosti” e o “RBK” pediam uma investigação transparente e a libertação de Golunov.

Ver Twitter O movimento que fez do jornalistas uma das pessoas “mais conhecidas e famosas da Rússia” em poucos dias pressionou políticos e autoridades. Valentina Matviyenko, porta-voz do parlamento e aliada de Vladimir Putin, foi uma das primeiras a criticar a investigação. Esta segunda-feira, o Kremlin admitiu que possivelmente existiram erros no caso.

Algumas horas depois, Golunov era libertado. As provas não tinham força suficiente. E o ministro do Interior já pôs em causa o lugar do chefe da polícia de Moscovo.

A ironia Há dez anos Golunov escrevia o primeiro artigo. Melhor, vendia a primeira investigação a um jornal. Era sobre um artista na Sibéria que tinha sido preso por tráfico de droga. Uma acusação fabricada, descobriria o jornalista, refere o “Moscow Times”. Irónico. Mais ainda, o segundo artigo que haveria de publicar nesse mesmo jornal seria sobre o negócio da cremação e dos funerais. Outra vez: irónico.

“É estranho que o destino daquele artista tenha sido praticamente o mesmo que agora aconteceu ao Vanya [um diminutivo de Golunov]. E ainda pior é que o artigo que me vendeu depois era sobre uma empresa esquisita que fazia cremações”, conta Alexei Munipov, editor do “Bolshoi Gorod”.

Atualmente, Golunov colaborava muito com o “Meduza”, um jornal online em russo e sobre assuntos da Rússia mas com sede na Letónia, que por ser um Estado-membro da União Europeia está protegido e abrangido por uma série de direitos como a liberdade de expressão. No entanto, parte dos jornalistas vive em território russo. É o caso de Golunov.

“Praticamente todas as investigações feitas pelo Ivan Goluvov afetavam os interesses de alguém e, na maioria dos casos, interesses de altos funcionários do Estado que tentavam esconder negócios ilegais. O Ivan é um dos melhores jornalistas de investigação do país”, descreve ao “The Guardian” o também jornalista Illya Zhegulev.

“Que vitória! Estamos felizes! Estou a chorar”, escreveu Ivan Kolpakov, editor do “Meduza” após as notícias da libertação. “Juntos fizemos algo incrível: travámos a investigação criminal de uma pessoa inocente”, defendeu o jornal, que vai agora começar a investigar o que originou a detenção. “Há muito trabalho à nossa frente para garantir que isto não acontece a mais alguém.”

Essa investigação não vai ser feita por Golunov. Até porque ele não o quer fazer: “Seria um conflito de interesses”.