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Conheça as atrizes que vão interpretar Dona Ivone Lara no teatro

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RIO – Um mês após a polêmica em torno da renúncia de Fabiana Cozza ao papel de Dona Ivone Lara, os realizadores do musical “Dona Ivone Lara – Um sorriso negro” apresentaram, com exclusividade ao GLOBO, as três atrizes que interpretarão a cantora e compositora, grande referência do Império Serrano. ( Entenda o colorismo : O que esse termo diz sobre o atual debate racial do Brasil? )

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Dandara Mariana (30 anos) e Heloísa Jorge (34) foram selecionadas através de um processo de audição, e irão interpretar, respectivamente, a juventude e o início da vida adulta da homenageada. Já Fernanda Jacob (28) é a artista convidada para substituir Fabiana, e vai representar Dona Ivone a partir dos anos 1970, quando ela assume a sua persona artística e se afirma como cantora e autora de suas próprias canções.

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Agora, dois meses antes da estreia, marcada para 14 de setembro no Teatro Carlos Gomes, o trio partilha o prazer e, também, a responsabilidade de reinterpretar a vida e as canções de uma das maiores personalidades do samba brasileiro.

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À frente de um elenco de 30 artistas, elas também se colocam diante de um dos mais complexos debates raciais e culturais ocorridos no Brasil nos últimos tempos: a discussão sobre legitimidade artística e racial para se interpretar Dona Ivone, uma das mulheres negras mais influentes do país.

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A RENÚNCIA

Fabiana Cozza renunciou ao papel depois de uma avalanche de críticas : apesar de negra, seu tom de pele foi considerado “claro demais” para interpretar Dona Ivone, que tinha a pele mais escura. Seguiu-se um debate acalorado sobre as noções de representatividade , embranquecimento racial e colorismo.

Sou militante, representatividade importa, e discuto o colorismo diariamente por ser negro, pai de três filhas negras, casado com mulher negra e filho de outra. Mas o que é incoerente é a forma da discussão. Quando você agride o seu irmão você perde a razão.’

– Elísio Lopes Jr. Autor e diretor Em conjunto, tais conceitos indicam que, quanto mais escura a cor da pele de alguém, mais preconceito e exclusão ela sofre, e quanto mais clara, maior é a aceitação social. Em acordo com tal lógica, atrizes negras de pele escura teriam menos oportunidades de trabalho. Do mesmo modo, a escolha de uma atriz de pele mais clara do que a homenageada contribuiria para a exclusão.

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Para as três atrizes escolhidas, assim como para o produtor Jô Santana e para o autor e diretor Elísio Lopes Jr., o debate suscitado pela saída de Fabiana foi pertinente e gerou revisões , mas a forma como a discussão foi levada a público pecou pela agressividade, que acabou por ferir uma pessoa “de dentro, que milita e se reconhece como mulher negra”, diz Elísio

– Os questionamentos foram pertinentes, e ninguém passou incólume – diz ele. – Sou militante, representatividade importa, e discuto o colorismo diariamente por ser negro, pai de três filhas negras, casado com mulher negra e filho de outra. Mas o que é incoerente é a forma da discussão. Quando você agride o seu irmão você perde a razão

O autor e diretor conta que desde o início o projeto previa contar com três atrizes para dividir o papel-título, e que Fabiana havia sido a única artista convidada e que não participaria das audições, tanto por sua legitimidade artística e racial, mas “sobretudo pela afinidade afetiva com Dona Ivone e com sua família”, diz Elísio

– É importante lembrarmos que a escolha de Fabiana partiu de uma indicação e de um pedido da própria Dona Ivone em vida. Ela queria se ver representada por Fabiana, e todo o projeto foi pensado para que Ivone pudesse assistir à estreia, no Rio – relembra Elísio

Dona Ivone Lara com Fabiana CozzaAcervo pessoal O diretor destaca que a indicação de Dona Ivone havia sido aceita “por esse lado afetivo” e por cumprir “todos os requisitos necessários para o papel”

– É uma atriz e cantora, reconhecida no mundo do samba, e uma mulher negra. Ou seja, para nós, ela tinha toda a legitimidade para realizar o projeto

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A saída, após a polêmica, teria sido uma decisão da própria cantora

– A saída de Fabiana foi por uma decisão dela baseada em uma extremo respeito e honestidade. Dona Ivone havia acabado de partir, e Fabiana nos chamou para uma conversa e nos disse: “A minha religião não permite que eu esteja nesse lugar, porque sei que Dona Ivone está em transição espiritual, e a minha presença, nesse lugar, está tirando a paz dela e da família dela. Eu não posso me colocar nesse lugar”. Não se faz arte sem paz de espírito, e um artista não vai para a cena sem ter confiança de que está no seu lugar. Entendemos Fabiana

RIO, BRASÍLIA E ANGOLA

Atrizes que vão interpretar Dona Ivone Lara: Dandara (de amarelo), Fernada Jacob (de preto) e Heloisa Jorge – Roberto Moreyra / O Globo Escolhida para interpretar a jovem Ivone Lara, a carioca Dandara Mariana diz não concordar com a “truculência com que a questão foi colocada”. Mas a atriz e dançarina, com papéis no cinema e na televisão (interpretou Marilda, melhor amiga da personagem de Isis Valverde na novela “A força do querer”, de 2017), acredita que a crítica ao modo como se deu o debate “não deve anular a importância do seu teor”:

Não concordo com a agressividade – diz. – Foi algo duro, porque era delicada demais a posição em que a Fabiana estava.

Estamos falando de um país extremamente racista, cujo racismo é estrutural. Então, sim, a Fabiana tem legitimidade para fazer o trabalho, mas as negras retintas ficaram incomodadas porque são elas que estão na base da pirâmide’

– Heloísa Jorge Atriz Filha de pai brasileiro e mãe angolana, Heloísa Jorge nasceu em Angola, e chegou ao Brasil aos 12 anos, como refugiada. Aqui, cursou artes cênicas em Salvador, e atuou na novela “Liberdade, liberdade”. Ela representará Ivone no começo da vida adulta. Isso inclui o casamento, a maternidade, o trabalho como enfermeira e assistente social em casas psiquiátricas, em colaboração com Nise da Silveira, e ainda as primeiras incursões entre os bambas do Império Serrano

O período engloba circunstâncias que evocam a luta por emancipação e empoderamento da mulher negra. Para ela, os desafios pessoais e profissionais enfrentados por Dona Ivone – diante do machismo e do preconceito racial – são indissociáveis da discussão sobre o colorismo e refletem a realidade das negras de hoje

– O debate sobre o colorismo é recente no país, porém necessário, pois a mulher de pele mais escura é excluída e a de pela clara tem privilégios – diz Heloísa. – Estamos falando de um país extremamente racista, cujo racismo é estrutural. Então, sim, a Fabiana tem legitimidade para fazer o trabalho, mas as negras retintas ficaram incomodadas porque são elas que estão na base da pirâmide

Ela destaca como a própria história de Dona Ivone Lara levanta muitas das discussões surgidas com a indicação de Fabiana, além de outras ainda essenciais no Brasil

Através de Ivone, discutimos coisas que continuam erradas no país, como o machismo, o racismo e as questões de gênero. Ela teve de abrir mão de muita coisa, ser estratégica e persistente para ser reconhecida só depois dos 50 anos. Hoje, a mulher negra continua sendo subjugada, e a peça faz a gente perceber que, no fim das contas, a gente caminhou pouco. Então, é bom que o espetáculo tenha suscitado esse debate, pois estamos avançando, e por um caminho sem volta. Já a forma como tudo se deu é discutível

Atrizes que vão interpretar Dona Ivone Lara. na foto Dandara (de amarelo), Fernada Jacob (de preto) e Heloisa Jorge – Roberto Moreyra / O Globo Escolhida para ocupar a vaga de Fabiana, Fernanda Jacob foi encontrada pelo autor e diretor da montagem nas redes sociais. Vinda de Brasília, onde integra o grupo teatral Embaraça e o projeto Samba na Rua, passou por testes individuais de canto e atuação, e não esperou o resultado para afirmar o seu lugar no projeto: “Essa é a história do meu povo, e eu vou contar essa história”, disse ela ao produtor Jô Santana

Ela veio com uma energia tão forte que fechei na hora – lembra Jô

Concordo sobre a relevância dos questionamentos sobre o colorismo e representatividade, mas a agressividade incomoda – diz Fernanda. – Tudo isso não pode apagar a história da Fabiana, e a proximidade dela com essas questões debatidas

Em cena, Fernanda surge quando Dona Ivone faz seu primeiro show, na casa de Sargentelli, ao lado de Clementina de Jesus e Roberto Ribeiro. É esse o ponto de virada da enfermeira para a artista

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Primeira mulher a integrar a ala de compositores de uma escola e também a primeira a assinar um samba-enredo (“Os cinco bailes da História do Rio“), a partir daí ela também se afirma como a verdadeira autora de sambas que, até ali, doava a seu primo, Mestre Fuleiro, para que fossem aceitos pelos homens das rodas

Para a atriz que viverá essa fase, o fato de ter os atributos artísticos e fenotípicos requisitados para o papel, como o tom de pele mais escuro, é importante, mas o que “fica é dar oportunidade de uma negra desconhecida ser protagonista”

– O mundo da arte é difícil, mas quando se é uma atriz negra o buraco é bem mais embaixo. Dona Ivone viveu isso. Então o que fica, para mim, não é se eu vou ter a cor ou não, mas a abertura dessa possibilidade, para que negras pouco conhecidas sejam protagonistas da História

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