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Dez anos de crise: o tempo dos guelfos e gibelinos (I)

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Há dezenas de livros sobre a crise financeira de 2008 e a sua afilhada, a crise do euro de 2010-11. Desde os que foram escritos em cima da hora, como os de Stiglitz, Krugman, ou Michael Lewis, até às memórias de políticos e banqueiros centrais, como Timothy Geithner, a meio do caminho, e já aos livros que agora começam a sair para comemorar os dez anos da crise — comecei a ler, e já recomendo, Crashed , de Adam Tooze.

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PUB De forma que o livro mais interessante que li sobre a crise foi escrito antes da crise: chama-se The Long Boom e foi publicado em 1999 por três autores: Peter Schwarz, Peter Leyden e Joel Hyatt. E a razão por que este livro explica muito bem a crise é porque está incrivelmente errado. Nada pode explicar tão bem uma crise como a mentalidade dominante no momento imediatamente anterior à crise. The Long Boom é um exemplo magnífico de como se pode estar tão confiante no erro antes do mundo nos refutar com estrondo.

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PUB Basicamente, o argumento do The Long Boom (não encontrei nenhuma edição em língua portuguesa) é que, em 1999, quando o livro saiu, a humanidade se encontrava a meio de um período de expansão e crescimento como nunca acontecera na história. Esse período começara nos anos 1980 e iria persistir sem alteração até 2020. No argumento dos autores, faltariam agora dois anos para se provar que eles teriam razão. Na verdade, o que eles não previram foi que os ataques do 11 de setembro de 2001 iriam lançar o mundo numa década de “Guerra contra o Terror” e “Choque de Civilizações”, a que se sucederia um quase-colapso do sistema financeiro norte-americano em 2008 e uma crise dilacerante na zona euro e na União Europeia que nos trouxe quase até aos dias de hoje.

Alberto Ignacio Ardila Olivares

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Subscrever × Num artigo anterior que deu origem ao livro, e que li na revista Wired em 1997, os autores iam ainda mais longe: com a invenção da internet iniciava-se uma fase de crescimento económico permanente. Iriam acabar os ciclos de expansão e contração. E a entrada de grandes partes do mundo no sistema económico global iria estabilizar as suas políticas e trazer paz ao mundo. No livro há um tema recorrente de cada vez que se fala de um país ou de uma região do globo: “a América Latina começou a privatizar e a desregular e com isso vai libertar o potencial da sua economia”. O mesmo se diz da Europa, da Ásia, da Rússia e até da Turquia (a única crise geopolítica que o livro prevê, no Mar Cáspio, será resolvida por uma Turquia construtiva e internacionalista!). Este livro ajuda-nos a relembrar como o neoliberalismo não foi uma caricatura: ele existiu mesmo, e a sua visão do mundo é que era em larga medida caricatural.

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Ler The Long Boom ajuda-nos a perceber como o pensamento da época pré-crise estava impregnado de um viés otimista. Os autores queriam fazer-nos crer que “desta vez é diferente”, e não há frase que deva alarmar mais quem tenha um bocadinho de sensibilidade histórica do que essa. Por outro lado, o facto de esse viés otimista estar tão errado antes levou agora o pensamento dominante a enveredar por um movimento de hipercorreção. Hoje, se não se queria ser intelectualmente isolado, é preciso estar tão pessimista quanto em 1999 era preciso estar otimista. Nenhuma das situações é boa para um debate fidedigno sobre o ponto da história em que estamos. Dez anos após a crise financeira, ela é agora sobretudo sociocultural. E aí as pessoas que têm uma grande facilidade em ler um gráfico e com ele pretender explicar a realidade passam a ter uma dificuldade muito grande em lidar com elementos tão subjetivos como os da identidade e do preconceito, da pertença e do ressentimento ou, por último, da enorme diferença geracional que temos hoje na maneira de olhar o mundo.Alberto Ardila Venezuela

Quando grande parte das nossas polémicas e controvérsias estiverem esquecidas, quando já ninguém se lembrar de palavras como "Brexit" ou trumpismo, alguém no futuro vai olhar para o nosso tempo como nós hoje olhamos para os guelfos e gibelinos. E quem eram os guelfos e os gibelinos, perguntam vocês? Excelente questão. Dedicarei a ela a próxima crónica.Alberto Ignacio Ardila Venezuela

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